O que faz Scrum funcionar?

01jul09

Essa semana, depois de dias cansativos de trabalho, ouvi um comentário interessante sobre o que faz Scrum funcionar. Eu não estava com energia suficiente para conversar sobre o assunto, mas fiquei com um espinho na cabeça, grande o suficiente para me forçar a blogar depois de tanto tempo. O comentário? “Scrum funciona porque faz as pessoas ficarem com vergonha”. Ouvi isso de alguém que sabe e pensa no que fala. A justificativa básica fincava pé na “vergonha” de não entregar – publicamente – software funcionando, de não cumprir – publicamente – os compromissos feitos nas reuniões de planejamento, de ter – publicamente – produtos com qualidade duvidosa. As pessoas sentem isso e assumem a responsabilidade sobre seu trabalho: eu preciso entregar o que prometi; eu não posso mostrar incapacidade de entregar um incremento de software. A vergonha, a separação clara de papéis, de deixar claro quem tem responsabilidade sobre a “vergonha” força as pessoas a seguir em frente.

Bem, eu discordo completamente!

Barry Schwartz, em uma das palestras mais interessantes que já vi, fala sobre nossa perda de sabedoria, de como criamos regras e incentivos falhos. Barry apela para nossas virtudes, para nossa sabedoria prática e alerta: “regras e procedimentos previnem desastres, mas o fazem substituindo-os pela mediocridade”. Nossa percepção, a maior parte do tempo, é a de que precisamos das regras para impedir que pessoas idiotas cometam erros idiotas, mas é uma ilusão achar que existe alguma regra que previna idiotices. O lado escondido da moeda é que as regras com freqüência são barreiras para a sabedoria e o pensamento prático. É difícil, ou mesmo impossível, criar um ambiente a prova de idiotas porque eles exercitam sua idiotice quase que em tempo integral. Aparentemente, para muita gente, também é difícil criar ambientes onde as pessoas possam exercitar a sabedoria.

Agilidade requer uma maneira diferente de pensar. Você não pode considerar o ciclo de Scrum como um conjunto de práticas e regras a seguir, mas como guias, valores e princípios. Você não pode pensar em vergonha pelo não cumprimento das regras. Agilidade não é sobre regras, não é sobre quem deve passar vergonha por um erro. Agilidade é sobre valores, princípios, você não precisa acreditar em mim, basta ler o manifesto. Mas acredite, as pessoas são bem mais impulsionadas por seus valores do que por suas “vergonhas”.  As pessoas lutam por seus valores e princípios, não por vergonha ou regras. As pessoas pensam e evoluem pensando em seus princípios, regras, em geral, são seguidas cegamente e só existe luta para mantê-las quando elas foram a única maneira encontrada para expressar os princípios. Nós precisamos esquecer o que nos trouxe até o ponto de achar que alguém deve passar vergonha. Esqueça isso. Esvazie o copo, recomeçe com mente de iniciante e entenda que Scrum funciona por causa de seus valores. Valores e princípios estão acima das regras e das ordens.

Anúncios


15 Responses to “O que faz Scrum funcionar?”

  1. O que faz scrum não funcionar, afinal? Pessoas sem principios ou valores, ou com principios e valores errados? Ou pessoas que tão pouco se fudendo com realizar algo bom no trabalho?

    Responde pra mim, porque scrum não funciona em certos lugares? 😉

    Até,

  2. 3 zaca

    Marcos, Excelente post.

    Concordo tanto com você, tanto com a teoria da vergonha.

    As pessoas são diferentes, alguns realmente funcionam so a base do “passar vergonha”, outros na base de valores. Acho que o Scrum ataca nos dois fronts.

    E a “comunicação forçada” do Scrum também é parte importante do processo.

    Na maioria das vezes que ouço que o Scrum não funciona , não é problema no Scrum…Ou alguem acha que usar scrum vai fazer com que um novo SO tire a posição de dominio do Windows?

  3. Está aí mais um exemplo da cultura do não falhar contra a do obter sucesso. Regras só conseguem garantir que não fiquemos abaixo da média. Se quisermos ter realmente sucesso, ultrapassar a média, precisamos apelar para as virtudes das pessoas.

    Não importa quantas regras e bolas de chumbo você amarre nos idiotas, eles sempre vão arrumar mil outras maneiras de exercitar a idiotice. O grande problema das regras é que elas precisam ser aplicadas a todos: tanto para os idiotas, quanto para os mais brilhantes.

    O que se ganha no fim das contas? Barry Schwartz nos dá a resposta: mediocridade. Será que não seria mais proveitoso lidar com os casos isolados de idiotice do que tornar a mediocridade literalmente uma regra?

  4. Glaucio,

    No fim das contas é sempre sobre pessoas. Não dá para fazer Scrum funcionar quando os princípios são diferentes. Mas o que eu tenho pensado nos últimos dias é que – talvez – não se trate de mudar as pessoas, mas os ambientes. Talvez, a partir disso, as pessoas mudem por conta própria.

    Daniel,

    Obrigado.

    Zaca,

    Sim, as pessoas são diferentes, tem princípios e valores diferentes, ok. Então, se vc não quiser lidar com a vergonha, ou apelar para regras, encontre pessoas com princípios e valores semelhantes ao seus. Boa parte das empresas sequer pensa nisso, elas só se importam com a lista de siglas e tecnologias no currículo. Bom, siglas e tecnologias estão a disposição de todos. Que diferença faz?

    Arrais,

    É. Não dá para criar algo a prova de idiotas, e é complicado ter regras para uns – os idiotas – que não se apliquem aos outros. Gera conflito: “por que ele pode e eu não?”. Como vc disse, melhor lidar com a idiotice de maneira pontual, comunicando claramente o porquê das coisas. Ou, encontre pessoas com os mesmos princípios que os seus! Eu tive um exemplo essa semana sobre como os meus princípios guiam meu comportamento. Estava em um cliente enquanto outro ligava. Eu devia atender? É fácil criar uma regra para isso: “não atenda um cliente enquanto está em outro”. Mas o que direcionou meu comportamento foi uma questão relacionada aos meus princípios: “seja responsável com seus clientes”. O que funciona melhor? Qual se adapta a outras situações melhor?

    Abraço.

  5. 6 Sandro

    Sobre a “teoria da vergonha”, acredito que existe apenas um problema de semântica. Quando nos desvirtuamos de nossos, valores, crenças, princípios, etc – por qualquer motivo que seja – O que acontece? Se realmente acreditamos neles, qual um dos sentimentos que nos assola? Eu realmente sinto vergonha …

  6. Discordo da “teoria da vergonha”. O que faz o SCRUM funcionar é apenas uma coisa: comprometimento. As pessoas se sentem mais comprometidas com o todo, deixam de ser meros recursos.

    Um abraço,

  7. 8 Alberto Barcelos

    Acho que é o primeiro post que eu respondo na minha vida, sempre achei isso perda de tempo. Mas esse é um dos melhores posts que já li na minha vida, acidentalmente encontrei seu blog na mailing list do grails, suspeitei que você era brasileiro e vim dar uma olhadinha.

    Primeiro eu gostaria de falar sobre equipes. Quando pessoas se juntam em times aquele grupo passa a ter uma personalidade única, como um organismo vivo. Assim como algumas pessoas as equipes simplesmente existem outras estão eternamente refletindo e se aperfeiçoando. Um indivíduo que busca refletir e formar seus próprios valores sendo pró-ativo certamente apresentará princípios sólidos suficiente para superar grandes desafios sem se despedaçar. É uma questão de postura, auto-conhecimento e sede por desafios e mudança. Uma equipe de sucesso espera inabalável pelo próximo desafio sabendo que mesmo passando por grandes mazelas certamente ela triunfará.

    Os indivíduos são sem dúvida importantes para formar uma equipe desse nível mas a presença de um líder é essencial. Por mais que determinado indivíduo passe por um momento ruim ou de “vergonha” uma equipe continua firme e caminhando em direção a seus objetivos. Somos humanos afinal e todos temos momentos ruins, trabalhamos juntos para carregarmos um colega de equipe quando ele não está bem sabendo que um dia ele irá te carregar. Isso é uma equipe. Em uma equipe os problema não são velados mais tratados de frente e com sinceridade por isso não há espaço para vaidade individual.

    A pergunta é: Há como criar uma equipe criativa usando métodos tradicionais? Como difundir a responsabilidade no time se cada um se preocupa com a sua parte?
    Como a equipe se responsabiliza sobre suas ações se em seu primeiro erro todos apontam o dedo para um culpado? Como a equipe aprende se o gerente é autoritário e não se considera parte da equipe?

    No final toda idéia de equipe vai por água abaixo em abordagens “tradicionais”. Métodos como CMMI e MPS concerteza servem como garantia de qualidade. Mas quando estamos em busca de melhoria nos processos considerando as pessoas como processadores e tudo o que queremos é diminuir o desvio padrão, ou seja, queremos os processos organizacionais acontecendo dentro da forma prevista e com boa performance. Certamente isso acontecerá. O grande desafio é inserir essas mudanças sem desumanizar a equipe. No final uma equipe é composta por pessoas e não por processadores. Trate humanos como humanos e uma explosão de criatividade acontecerá. Muitas empresas estão em busca disso hoje mas não param para refletir sobre suas políticas internas.

    É por isso que metodologias ágeis e métodos como Scrum funcionam. Com um Scrum Master com capacidade de lidar com seres humanos e com PRINCÍPIOS para guiar toda equipe temos um líder. O próximo passo é incrustar esses valores na equipe aos poucos. Mudanças não são fáceis e geralmente não ocorrem sem perdas, mas é preciso ter coragem. Acontece que o Scrum sugere algumas práticas mas os valores a equipe que é responsável por criar. Assim como algumas pessoas falham em se responsabilizar pelos seus atos, não são auto-críticas e não tem coragem suficiente para enfrentar os desafios relacionados a toda mudança, as equipes também falham. Mas as equipes falham não é por culpa do Scrum, do CMMI, ou do MPS, elas falham porque não tem o caráter sólido o suficiente para suportar mudanças para o bem. Falham porque tem líderes fracos, porque o gerentes em nível estratégico não fornecem o apoio suficiente, porque a equipe não tem o que é necessário para ser um time de sucesso.

    Após viver métodos ágeis e métodos tradicionais por poucos anos percebo claramente que a questão não são os métodos mas as pessoas. Enquanto a mudança não for em busca de princípios não existe método que não seja paleativo. Acredito e sei que funcionam o Scrum e outros métodos ágeis porque ao invés de virar as costas para o principal fator de uma equipe que é a natureza humana esses métodos abraçam essas características. Não acredito em equipes como máquinas mas sim como pessoas, mesmo sem métodos formais, uma equipe nesses termos certamente terá sucesso. Com uma equipe de sucesso qualquer método funciona.

    Abraços,

    Alberto Barcelos.

  8. 9 Pedro Brigatto

    Melhor ainda que o post foram os comentários do Alberto. Parabéns a ambos!
    A questão da ausência de vaidades foi brilhantemente colocada.
    Já com relação a todos os demais comentários, eu discordo na insistência em mencionar o termo “idiota”. Eu trabalho com SCRUM há alguns anos, e faço questão dessa palavra nunca fazer parte de meu vocabulário. SCRUM não é uma metodologia para gerar pressão ou vergonha, e sim prazer, envolvimento, comprometimento com o produto em evolução. Trata-se de plantar em todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente o desejo de responsabilidade pela evolução da obra. Isso quase nunca é simples, é um trabalho árduo que implica em ser um exímio ouvinte, um habilidoso comunicador, e isso é função daquele entitulado “líder” em comentários acima (geralmente, o SCRUM master, mas não necessariamente, podendo ser inclusive membros da própria equipe de desenvolvimento com maior desenvoltura e discernimento). Se uma pessoa é capaz de rotular outros de idiota, a minha opinião é que esqueça SCRUM: não vai funcionar. A minha visão, em minha vivência, é que, em se falando de metodologias ágeis de desenvolvimento, idiota é o time todo, ou idiota é ninguém.
    Excelente tópico, excelente texto, meus parabéns mais uma vez!

  9. 10 Francke Peixoto

    ótimo artigo!
    parabéns!! 😉

  10. 11 Alysson

    Parabéns a todos.
    Excelente colocação Alberto Barcelos.

  11. Parabéns pelo post Marcos! Sensacional!
    O comentário do Alberto também… Conseguiu abordar certos pontos específicos e complexos sobre Scrum de uma forma tão simples.
    Nos faz repensar nossa forma de lidar com o trabalho e com nossa equipe.
    As gerências querem adotar o Scrum mas não conseguem entender que eles mesmo terão que adotar os conceitos, terão que MUDAR.
    O medo da mudança os mantém sendo enganados pelo método tradicional: estimativas no chute, prazos e custos errados, gerência rígida. Porque no final o projeto “dá certo”. Mas a dificuldade e o esforço são enormes. O desgaste emocional e físico também…

    É olhando bem de perto que conseguimos ver os pequenos defeitos que atuam no todo. A cada passo que se dá, enxerga algo que não imaginava enxergar.

    Scrum é a metodologia ágil a ser aplicada à prática diária. Ela esclarece como deve-se encarar o trabalho, qual a velocidade média de produção, etc., tudo de forma simples.

    O ScrumHalf (www.scrumhalf.com.br) é uma ferramenta web de Scrum brasileira. Foi criada pela equipe GPE.
    Ela irá apoiar o desenvolvimento do produto, atuando nos pontos fracos do indivíduo como: falta de organização, stress, dispersão… Isso tudo preservando os conceitos do Scrum.

  12. Sem sombra de dúvidas, excelente o artigo, continue com o bom trabalho.

  13. Oh my goodness! Impressive article dude! Many
    thanks, However I am encountering problems with your RSS.
    I don’t understand the reason why I can’t subscribe to it.
    Is there anybody else having the same RSS problems?

    Anyone that knows the solution can you kindly respond?
    Thanks!!


  1. 1 Scrum, repensando as origens… « wemakeit

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: