Por menos automação
Como desenvolvedores de software nós trabalhamos para criar ferramentas que automatizem ou melhorem tarefas. Escrevemos software para análise de dados financeiros, para gerar relatórios sobre como anda o relacionamento com os clientes e para uma infinidade de propósitos. É bastante natural querermos então automatizar tanto quanto possível do nosso trabalho. Daí criarmos rotinas prontas para compilação, empacotamento, testes e toda e qualquer tarefa que se mostre repetitiva. Se você não faz isso no seu trabalho, saiba que perde tempo a cada execução manual e repetitiva de alguma tarefa que pode ser automática.
Não é de surpreender que, nessa sede de tornar tudo executável com um clique, vez ou outra alguém tente automatizar o que não deve. Afinal, eis aí uma maneira de maximizar a previsibilidade e a eficiência da tarefa: ninguém corre o risco de esquecer um passo importante e acabar com resultados errados. Mas existe a contra mão para não ser automatizada. Uma via intimamente relacionada a tarefas com impacto na maneira de pensar das pessoas.
Deixem-me esclarecer de onde essas alucinações vieram.
Exemplo de prática com impacto nas pessoas: em metodologias agéis, quando pensamos em artefatos tais quais modelos, diagramas e afins, o mais importante não é o artefato em si, e sim o trabalho de criar, o fazer. Por causa disso, usamos artefatos fáceis de gerar – como story cards – e de descartar caso estejam errados. Os cartões têm, claro, seu valor, só que o que importa mesmo é o jogo do planejamento, a reunião na qual eles, os cartões, são escritos. Pode passar despercebido, mas olhar mais para o fazer é uma maneira de criar sinergia porque as pessoas desenvolvem o hábito de, juntas, realizar tarefas.
O outro impacto provocado por quadros com story cards, gráficos burn-down, ou outros artefatos pendurados até onde a vista alcança é que eles impactam as pessoas o tempo todo sobre como o projeto está, desde quando você entra no ambiente até quando sai. Mais ainda, os quadros vão além de serem apenas um snapshot do projeto, eles são um estimulo para o senso de que as tarefas precisam ser terminadas. Ferramentas sem impacto visual, por outro lado, não produzem estimulo na mesma proporção, basta pensar que issues trackers, mesmo os melhores, não estão sempre a vista.
A partir daí você pode imaginar minha surpresa ao ver essa noticia no InfoQ mostrando como um conjunto de artefatos com apelo visual foi substituído por uma ferramenta com – verdade seja dita – alguns recursos pra lá de interessantes, mas, vejam só, longe dos olhos das pessoas, ou ao menos não tão perto assim. Espero que eu não seja o único a perceber que menos informação é irradiada. Talvez ainda faltem as ferramentas certas, ou o hábito de usá-las como se deve, mas acho que, assim como há espaço para mais automatização no que diz respeito a tarefas repetitivas, feitas por maquinas, há espaço para menos automação, para tarefas que requerem aquilo que os serem humanos – ao menos os mais interessantes – têm de sobra: criatividade, curiosidade e tato.
Filed under: agile, gente | 2 Comments
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É so substituir os quadros do Scrum por telas lcds de 50 polegadas,sensiveis ao toque!
zacarias, e a gente realmente ganha o que com isso?
abraço…